Orientados por um ideal de solidariedade humana e cristã, com inequívocas raízes nacionais e um paralelo anseio de mais cultura, pretendemos levar essencialmente às camadas jovens os meios indispensáveis à sua valorização, roubando-os à passividade perniciosa ou ao desânimo de incompreendidos que não encontraram, no «mar magno» das multidões, o caminho seguro das suas tendências.

Certamente, muito teria que aproveitar o País se um maior número de instituições, desta natureza, colocasse cada português no seu verdadeiro «posto», deixando-o desabrochar sinceramente para a vida e para o conhecimento mais profundo das necessidades espirituais da Nação Portuguesa.

Ferrão Moreira – Agosto de 1959

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Faleceu Mestre Júlio Resende

Faleceu hoje, com 93 anos, o Mestre Júlio Resende que foi professor de alguns de nós na Escola Técnica e Elementar Gomes Teixeira, no Centro Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses e no Centro Ramalho Ortigão

Com a devida vénia ao "Público", transcreve-se a notícia publicada:

O pintor Júlio Resende, um dos grandes nomes do neo-realismo, morreu esta quarta-feira, em Valbom, Gondomar, aos 93 anos. O corpo do artista está em câmara-ardente na igreja paroquial de Valbom.


Júlio Resende, nascido no Porto a 23 de Outubro de 1917, frequentou as Escolas de Belas-Artes do Porto e de Paris, tendo iniciado a sua actividade artística como ilustrador em semanários infantis e na imprensa diária ainda quando era jovem.


Em 1946, ano em que apresentou a sua primeira exposição em Lisboa, José Resende obteve uma bolsa de estudo no estrangeiro do “Instituto para a Alta Cultura”, tendo sido nesta sua passagem pela Europa, em especial por Paris e Madrid, onde teve contacto com as obras de Picasso e Goya, que Júlio Resende despertou para a pintura abstraccionista.
"Mas eu queria, efectivamente, ser pintor! Talvez o destino me tenha proporcionado o primeiro passo. Aurora Jardim, figura conhecida nos meios literários e jornalísticos do Porto, intercedera junto do pintor Alberto Silva que dirigia, então, a Academia Silva Porto, para que eu viesse a frequentar as lições de pintura aí ministradas. Comprei a primeira caixa de tintas «a sério», e aprendi a colocar as cores na paleta, segundo as boas regras", escreveu o pintor, no site Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, instituição onde está reunido um espólio de cerca de dois mil desenhos que Júlio Resende reuniu ao longo da sua carreira.
Na década de 1950, o pintor fixa-se no Porto, partilhando o tempo entre a arte e o ensino. Por influência da região, a gente do mar passou a constituir o tema dominaste da sua pintura, tendo apresentado a sua obra em exposições individuais em países como Espanha, Bélgica, Noruega e Brasil. Por vários anos, foi o representante de Portugal em exposições colectivas nas Bienais de Veneza, Ohio, Londres, Paris e São Paulo, nesta última destacando-se em 1951, quando venceu o Prémio Especial da Bienal. Em 1959, volta a surpreender, conseguindo uma menção honrosa, e dez anos depois, vence o Prémio Artes Gráficas na Bienal de Artes de S. Paulo, com ilustrações do romance "Aparição".
Nos anos 1960, Resende interessou-se ainda por projectos de decoração e arquitectura, colaborando na decoração do Palácio da Justiça de Lisboa, para onde realizou seis painéis em grés. No Porto, criou dois painéis cerâmicos para o Hospital de São João e ainda o gigantesco painel de azulejos "Ribeira Negra" existente à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I. Os painéis acabariam mesmo por se tornarem num dos seus trabalhos mais apreciados. 
Júlio Resende foi nomeado Membro da Academia Real das Ciências, Letras e Belas-Artes Belgas, em 1972, e em 1982 recebeu as insígnias de Comendador de Mérito Civil de Espanha atribuídas pelo Rei de Espanha.
Em Portugal foi distinguido com o Prémio AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte) em 1985.

domingo, 29 de maio de 2011

Um Sábado Memorável

Foi uma tarde verdadeiramente aprazível a que se seguiu ao almoço realizado, no passado dia 21, pelo nosso Círculo, no requintado ambiente do Grande Hotel do Porto. Por um lado, porque o reencontro anual é sempre motivo de contentamento e por outro, porque tivemos, finalmente, o gosto de, rever, para alegria nossa, passados que foram cerca de 50 anos, duas condiscípulas do Centro Ramalho Ortigão: a Filomena Ferreira e a Carmen Marinho Ribeiro, a inesquecível “Antigona”.

Carmen Marinho Ribeiro
Carmen Marinho Ribeiro, António Pinho e Álvaro Braga
Filomena Ferreira e Hernani Pinho
Lenine Mendes e António Barbosa
Leonor Azevedo e Fernando Morais
Duarte Costa, Silva e Sá e Lenine Mendes
Lourival Monteiro e Alfredo Pinto Matos
Delfina Ribeiro, Filomena Ferreira e Hernani Pinho. Do lado direito, Álvaro Braga
António Pinho, Álvaro Braga e Jerónimo Augusto. Ao fundo, Alberto Dores Ferreira
 Júlio Cardoso (que foi Hemon, na peça) despede-se da Carmen Marinho Ribeiro (Antígona). Ao fundo, Abel Joaquim Santos

sábado, 21 de maio de 2011

Almoço Anual de Confraternização

Hoje, por volta do meio-dia e meia hora, um grupo de cerca de trinta antigos alunos da Escola Gomes Teixeira, da Secção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses e, ainda, do Centro Cultural Ramalho Ortigão, reunir-se-á num almoço-convívio, recordando o tempo em que, sob a orientação do sempre lembrado Dr. Fernando Ferrão Moreira, se iniciava nos meandros da Cultura.

domingo, 15 de maio de 2011

A PINTURA


Grupo de alunos de pintura da Secção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses 
As aulas de pintura da Secção Cultural para a Juventude no Clube Fenianos Portuenses realizavam-se normalmente aos domingos de manhã numa sala do 2º andar do Clube. Era uma sala de enorme dimensão com um tecto muito alto, onde se guardavam vários adereços do Clube. Poderia pensar-se que um ambiente como este poderia suscitar algum pavor a tão jovens “artistas”… Porém, contrariamente a isso, os jovens alunos que frequentavam estas aulas criaram laços de amizade e hábitos de trabalho que os levaram a percorrer alguns locais dos arredores da cidade para observar e registar aspectos típicos e pictóricos da Natureza, ao ar livre. Faziam parte deste grupo o Jaime Palmela, o Domingos Pinho, o Rui Rodrigues, eu próprio, e muitos outros, que, orientados pelos professores Júlio Resende e Valentim Malheiro, cedo começaram a sentir e a entender a Pintura como forma de expressão que se desenvolve através da prática continuada. O trabalho que se desenvolveu ao longo de alguns meses pode ser apreciado na primeira exposição colectiva realizada no Salão Nobre do Clube Fenianos, em Novembro de 1957.
1ª Exposição
2ª. Exposição

Posteriormente, o Professor Isolino Vaz deu continuidade a estas aulas, imprimindo o seu temperamento de pesquisa e de permanente trabalho, incentivando as capacidades individuais, impulsionando os mais tímidos, fazendo sentir que todos poderiam chegar a níveis de qualidade artística em que alguns nem sequer acreditavam. Foi deste modo que se realizou a segunda Exposição de Pintura no Salão Nobre do Clube Fenianos, em Dezembro de 1958, e posteriormente, a Exposição de Pintura, Escultura e Cerâmica, realizada no Orfeão do Porto, em Maio de 1960, esta já integrada no Centro Ramalho Ortigão. Foram tempos de vivo entusiasmo e de salutar convívio numa altura em que se vivia um forte controlo social, através de uma vigilância que desconfiava e reprimia os mais bem intencionados agrupamentos culturais.

Exposição realizada no Orfeão do Porto
Grupo de Expositores no Orfeão do Porto
Humberto Carneiro

domingo, 8 de maio de 2011

Almoço Anual de Confraternização

À semelhança do que se vem fazendo desde 2006, a Comissão Organizadora do Círculo decidiu realizar, no próximo dia 21 do corrente mês de Maio, mais um almoço de confraternização. As cartas-convite foram enviadas aos destinatários, aguardando-se, agora, a confirmação da presença.
O encontro será no Grande Hotel do Porto, pelas 12h30 daquele dia. Depois do almoço-bufete, seguir-se-á uma tarde de conversa num dos salões do Hotel, a pretexto de recordações. 

domingo, 10 de abril de 2011

Mário Azevedo Silva --- In Memoriam

No passado dia oito, já tarde da noite, fomos confrontados com a notícia do falecimento do nosso Amigo Mário Azevedo Silva. Ontem, pelas duas da tarde, saiu o seu funeral da capela mortuária da Igreja do Bonfim para o cemitério do Prado do Repouso. Alguns de nós, Amigos dos tempos do Centro Ramalho Ortigão pudemos estar presentes nesta última despedida.

Desde que, em 2006, iniciámos um ciclo de confraternizações anuais, o Mário Azevedo esteve sempre connosco, alegrando os convívios com variados trechos ao piano, que era a sua paixão artística.

Fica em paz, Mário!

Duarte Costa
Humberto Carneiro
J.Silva Pereira

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Memórias... da Secção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses

O Clube Fenianos Portuenses integrou a Secção Cultural para a Juventude durante os anos de 1957 até finais de 1959.

Na Secção Cultural para a Juventude desenvolveu-se uma intensa actividade cultural em que era proporcionado aos jovens um convívio que ia de aulas de Literatura Infantil, Francês, Inglês, Filosofia a actividades de Pintura, Teatro, Passeios de Estudo e Colóquios.

            O Dr. Ferrão Moreira soube incutir nos jovens o gosto pela cultura nacional e universal e o espírito de entreajuda e de solidariedade humana. É importante recordar que nesta época se viviam tempos muito difíceis, dado que a polícia política de então controlava todas as actividades culturais e impedia o desenvolvimento daqueles que ansiavam por mais cultura, atrofiando a criatividade pelo “medo” que impunham. O Dr. Ferrão Moreira teve de prestar declarações junto da polícia política, mas sempre foi contornando as dificuldades, sem que os mais novos de então chegassem mesmo a saber de tais contactos.

            Efectuaram-se exposições de Pintura, Saraus Musicais, colóquios, Espectáculos de Teatro.
            Na Secção Cultural para a Juventude deram aulas graciosamente os Professores Júlio Resende, Valentim Malheiro, Isolino Vaz, o actor Jayme Valverde, o Maestro Filinto Nina, o Padre Costa Maia, o Professor José Brandão, o Dr. Hernâni Dias da Silva, o Professor Correia de Barros, o Professor Joaquim Godinho e a Maria de Fátima Almeida e Sousa. 
Uma Aula de Língua Pátria pelo Dr. Hernani Dias da Silva

            A Secção Cultural dispunha também de uma Biblioteca privativa.

           O Barredo de então era não só o local histórico da cidade do Porto, mas também um local onde era difícil penetrar, tal era a revolta dos seus habitantes que viviam em grande debilidade social e económica. Pois foi aí que o Dr. Ferrão Moreira conseguiu cativar um grupo de rapazinhos do Barredo e trazê-los para o convívio com outros jovens seus semelhantes a fim de usufruírem de um ambiente mais humano e mais confortável. Foi uma experiência que passou quase despercebida porque estes jovens eram afinal iguais a todos os outros. Não sabemos se ganharam com a experiência, mas o Dr. Ferrão Moreira tirou certamente as suas próprias conclusões.

            Realizaram-se visitas de estudo à Casa de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Seide, a Guimarães e à Penha, ao Gabinete de História da Cidade do Porto, ao Jardim do Museu Soares dos Reis, onde a par de uma aula de Botânica houve uma sessão de desenho e pintura orientada pelo Professor Isolino Vaz, ao Museu Etnográfico do Douro Litoral e às Minas do Pejão.

Apraz-nos registar algumas palavras do Dr. Ferrão Moreira proferidas no âmbito de uma entrevista a um jornal:

“A Secção Cultural para a Juventude é uma organização que pretende aproveitar e desenvolver as tendências culturais e artísticas dos jovens, dentro de uma orientação pedagógica justa e séria, a par duma preocupação social.
            Esta obra é destinada a todos os jovens, sem distinção de classes ou de profissões, e só eles a podem realizar de acordo com as suas possibilidades.
Possuem a sua secretaria, o seu movimento de Biblioteca, com os respectivos assistentes que constituem o corpo directivo, onde procuro ser apenas um orientador, um amigo que espera e confia deles as melhores iniciativas, pois são eles que resolvem os seus problemas, de acordo com os interesses da maioria expressos no resultado da votação a que se procede.” 

Durante a nossa permanência no Clube Fenianos passamos pela trágica ocorrência de um incêndio que destruiu as instalações que ocupávamos. Foi no dia 2 de Novembro de 1958. Ficamos completamente desorientados e desgostosos, mas logo nos foi prometido que, após as obras de reconstrução voltaríamos a ocupar esse nosso espaço. Pudemos ocupar provisoriamente outras salas, mas esse novo espaço era menos acolhedor e não se adaptava bem às nossas actividades. Foi então que surgiu um andar, na Rua de Santa Catarina, 1210, onde passamos a exercer as nossas actividades, agora como Centro Ramalho Ortigão.


Humberto Carneiro - 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Homenagem Póstuma - II

Maria Emília Mota lê um poema
Ao lado, D. Graziela Ferrão Moreira
Júlio Cardoso lê um texto escrito pelo Dr. Ferrão Moreira
Um aspecto da homenagem
Em primeiro plano, Mário Cláudio. Identificam-se, também, Duarte Costa, Delfina Ribeiro, Maria Helena Ribeiro, Leonor Azevedo - que depositou um ramo de flores - e, à porta do jazigo-capela, Júlio Cardoso
Outro aspecto da homenagem
Dra. Maria Clementina Quaresma, Duarte Costa, Mário Cláudio, 
Mário Cláudio, em brilhante improviso

sábado, 22 de janeiro de 2011

Homenagem Póstuma - I

No dia 17 de Maio de 2006, realizou-se uma homenagem póstuma ao Dr. Fernando Ferrão Moreira, junto ao seu jazigo no Cemitério do Prado do Repouso. Dela participaram alguns dos seus colaboradores no Centro Ramalho Ortigão, bem como muitos dos seus ex-alunos. Presente, também, a sua viúva, a Engª. D. Graziela Ferrão Moreira.

A concentração, no Largo de Soares dos Reis

Lourival Monteiro, Preciosa Silva, Duarte Costa e Maria Emília Mota
Delfina Ribeiro, Maria Helena Ribeiro, Jerónimo Augusto e o Escritor Mário Cláudio
Mário Azevedo Silva e Mário Cláudio

domingo, 16 de janeiro de 2011

PROCURANDO, Encontro!

À procura do bem e da verdade

encontrei aqueles que são os meus amigos
e ainda outros que li e são irmãos da nossa procura fraternal
e também esses que ouvi na Música e no sol
e nas cores do pintor e nas formas sublimes dos artistas.
À procura do bem e da verdade
teci uma teia universal de pessoas
que existem realmente à volta da Terra
e embalam o planeta com seus feitos heróicos
do pensamento são , vivo, benigno.

À procura da amizade e da justiça
passei pelos horrores dos crimes e ganâncias
dos ódios e rancores
mas sempre soube que os amigos poetas
por tão poucos que somos, somos grandes na esperança
somos a qualidade na formosura das ideias
e no impulso da abarcar a Terra inteira.
Eu também sou como eles
passo dias, passo noites a pensar nos meus poetas 
e para eles escrevo
e também para os povos que ainda não me leram
e que são quase todos.

Nesta procura morrerei e outros virão logo a seguir,
preciosos de luz  e de verdade
continuar esta sementeira de amor.
A minha vida foi apenas uma ligeira e ténue ondulação do mar que veio molhar de espuma as pernas da juventude.
Fico satisfeito pelo pouco que me deixaram fazer
pelo pouco que escrevi e pelo muito que ainda preciso de atirar para o cesto dos papeis.
E esta vida só terá sentido quando houver tantos poetas que já nem o crime nem a raiva possam subsistir.

Fernando Morais - 2010




sábado, 8 de janeiro de 2011

APRESENTAÇÂO

Foi na Escola Gomes Teixeira que tudo começou!

Muitos dos alunos do Distrito do Porto que terminaram a 4ª. classe da Instrução Primária no ano de 1951, não querendo ou não podendo optar pela via do ensino liceal, foram propostos a exame de admissão às escolas de ensino técnico existentes na cidade. Sucedeu, porém, que, por aquela mesma altura, se deu início ao Ciclo Preparatório, constituído pelos dois primeiros anos dos cursos industriais e comerciais, originando o encurtamento destes, de cinco para três anos.

No segundo período do ano lectivo de 1951/1952, portanto já no decurso do ano de 1952, um grupo daqueles alunos abandonou a instalações da Escola Industrial Infante D. Henrique, onde frequentara, provisoriamente, o primeiro período de aulas, e foi ocupar as novíssimas instalações - com ginásio, cantina e oficinas ainda em fase de construção - de uma das escolas onde funcionaria o Ciclo Preparatório. Chamava-se, à altura, Escola Técnica e Elementar Gomes Teixeira, situando-se na Praça da Galiza, na cidade do Porto, onde ainda funciona com o nome de Escola Básica Gomes Teixeira.

Muitos dos professores, ainda no início da respectiva carreira e aproveitando as excelentes condições que a Escola proporcionava, aplicaram novas técnicas educativas – hoje em dia, perfeitamente usuais, mas raríssimas na altura - que incluíam, para além de deslocações a locais históricos e a museus, o teatro, a poesia, o desenho e a pintura e as representações e exposições em fim de período ou de ano.

De alguns, embora poucos, professores recordamo-nos dos nomes: Dr. Fernando Ferrão Moreira, professor de Língua e História Pátria, Mestre Júlio Resende, professor de Desenho e Prof Armelindo Bentes, professor de ginástica, mas, apenas no 2º. Ano.

Julgamos que a experiência colhida pelo Dr. Ferrão Moreira nesta Escola o terá levado a dar continuidade à sua intenção de “…levar essencialmente às camadas jovens os meios indispensáveis à sua valorização, roubando-os à passividade perniciosa…” e, de maneira a evitar a dispersão dos seus alunos, criou a

 Secção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses
Porto

onde, durante alguns anos, os seus alunos se reuniram aos Sábados de tarde e, também, ao Domingo de manhã, aproveitando, não só as suas magníficas lições de Língua e de História Pátria, mas igualmente as de Pintura, pelos Mestres Júlio Resende e Valentim Malheiro e, mais tarde, pelo Mestre Isolino Vaz, as de Música, as de Teatro, as de Declamação, as de Xadrez e outras mais.

Por razões várias, o Clube Fenianos Portuenses viu-se obrigado a encerrar a Secção Cultural para a Juventude, mas o Dr. Ferrão Moreira e a sua equipa de professores contagiada pelo seu entusiasmo não desistiram. Alugaram um segundo andar de um prédio antigo sito à Rua de Santa Catarina (o prédio ainda existe), nas proximidades da Fontinha, e deram continuidade à sua obra pedagógica com a criação do

Centro Cultural Ramalho Ortigão
Porto

local onde, durante uns anos mais, proporcionaram a largas dezenas de jovens de ambos os sexos, e de forma gratuita, um fluxo cultural verdadeiramente invulgar. Nomes grandes da nossa cultura – Mário Cláudio, Júlio Cardoso, Júlio Couto e outros mais – conviveram nas salas acanhadas daquele segundo andar.

Mas foi o êxito da representação da peça “Antigona”, de Sófocles, glosa nova de António Pedro, encenada por Jayme Valverde, professor de Teatro do Centro que coroou de louros o esforço, a dedicação e o entusiasmo de professores e alunos. Em Setembro de 1959, em concurso levado a efeito pelo S.N.I. (Secretariado Nacional da Informação) no Teatro Trindade, em Lisboa, a representação daquela peça obteve uma brilhante Menção Honrosa, apesar da enorme falta de meios de que o Centro padecia.

Por razões de carácter político, nunca, o Centro, conseguiu ser reconhecido como uma organização cultural juvenil de pleno direito. Viu-se forçada a encerrar as suas instalações e a renunciar a qualquer actividade. Porém, nem o Dr. Ferrão Moreira, nem a grande maioria dos que com ele conviveram e levaram, por diante, este projecto único, desistiram ainda assim. Na impossibilidade de transmitir cultura, directamente, aos jovens interessados, pensaram fazê-lo através do:

Jornal “ O Meu Amigo”  

cujo primeiro número foi distribuído em Junho de 1963, cobrindo um universo essencialmente constituído pelos antigos alunos, agora bastante dispersos.

O mensário foi sobrevivendo com grande dificuldade, mas acabaria por morrer, ao fim de 28 números, em Outubro de 1965.

                                                **********************************


Mais de quarenta anos depois, um pequeno grupo de antigos alunos do Dr. Ferrão Moreira resolveu organizar uma homenagem – póstuma, já que o Professor e Amigo falecera, entretanto – que incluiu uma romagem ao seu jazigo, no Cemitério do Prado do Repouso e um almoço de confraternização. O evento reuniu mais de meia centena de pessoas e dele daremos conta, noutra oportunidade.

Mais recentemente, houve quem sugerisse a criação de um blogue, ou sítio, que servisse de ponto de encontro a todos quantos, de algum modo, estiveram ligados às iniciativas do Dr. Ferrão Moreira.

Quanto ao blogue, ei-lo aqui! Aberto a quem nele queira colaborar, mesmo que seja corrigindo o que se vai escrevendo apenas alicerçado em memórias com quase meio século de existência.

J Silva Pereira