Orientados por um ideal de solidariedade humana e cristã, com inequívocas raízes nacionais e um paralelo anseio de mais cultura, pretendemos levar essencialmente às camadas jovens os meios indispensáveis à sua valorização, roubando-os à passividade perniciosa ou ao desânimo de incompreendidos que não encontraram, no «mar magno» das multidões, o caminho seguro das suas tendências.

Certamente, muito teria que aproveitar o País se um maior número de instituições, desta natureza, colocasse cada português no seu verdadeiro «posto», deixando-o desabrochar sinceramente para a vida e para o conhecimento mais profundo das necessidades espirituais da Nação Portuguesa.

Ferrão Moreira – Agosto de 1959

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Memórias... da Secção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses

O Clube Fenianos Portuenses integrou a Secção Cultural para a Juventude durante os anos de 1957 até finais de 1959.

Na Secção Cultural para a Juventude desenvolveu-se uma intensa actividade cultural em que era proporcionado aos jovens um convívio que ia de aulas de Literatura Infantil, Francês, Inglês, Filosofia a actividades de Pintura, Teatro, Passeios de Estudo e Colóquios.

            O Dr. Ferrão Moreira soube incutir nos jovens o gosto pela cultura nacional e universal e o espírito de entreajuda e de solidariedade humana. É importante recordar que nesta época se viviam tempos muito difíceis, dado que a polícia política de então controlava todas as actividades culturais e impedia o desenvolvimento daqueles que ansiavam por mais cultura, atrofiando a criatividade pelo “medo” que impunham. O Dr. Ferrão Moreira teve de prestar declarações junto da polícia política, mas sempre foi contornando as dificuldades, sem que os mais novos de então chegassem mesmo a saber de tais contactos.

            Efectuaram-se exposições de Pintura, Saraus Musicais, colóquios, Espectáculos de Teatro.
            Na Secção Cultural para a Juventude deram aulas graciosamente os Professores Júlio Resende, Valentim Malheiro, Isolino Vaz, o actor Jayme Valverde, o Maestro Filinto Nina, o Padre Costa Maia, o Professor José Brandão, o Dr. Hernâni Dias da Silva, o Professor Correia de Barros, o Professor Joaquim Godinho e a Maria de Fátima Almeida e Sousa. 
Uma Aula de Língua Pátria pelo Dr. Hernani Dias da Silva

            A Secção Cultural dispunha também de uma Biblioteca privativa.

           O Barredo de então era não só o local histórico da cidade do Porto, mas também um local onde era difícil penetrar, tal era a revolta dos seus habitantes que viviam em grande debilidade social e económica. Pois foi aí que o Dr. Ferrão Moreira conseguiu cativar um grupo de rapazinhos do Barredo e trazê-los para o convívio com outros jovens seus semelhantes a fim de usufruírem de um ambiente mais humano e mais confortável. Foi uma experiência que passou quase despercebida porque estes jovens eram afinal iguais a todos os outros. Não sabemos se ganharam com a experiência, mas o Dr. Ferrão Moreira tirou certamente as suas próprias conclusões.

            Realizaram-se visitas de estudo à Casa de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Seide, a Guimarães e à Penha, ao Gabinete de História da Cidade do Porto, ao Jardim do Museu Soares dos Reis, onde a par de uma aula de Botânica houve uma sessão de desenho e pintura orientada pelo Professor Isolino Vaz, ao Museu Etnográfico do Douro Litoral e às Minas do Pejão.

Apraz-nos registar algumas palavras do Dr. Ferrão Moreira proferidas no âmbito de uma entrevista a um jornal:

“A Secção Cultural para a Juventude é uma organização que pretende aproveitar e desenvolver as tendências culturais e artísticas dos jovens, dentro de uma orientação pedagógica justa e séria, a par duma preocupação social.
            Esta obra é destinada a todos os jovens, sem distinção de classes ou de profissões, e só eles a podem realizar de acordo com as suas possibilidades.
Possuem a sua secretaria, o seu movimento de Biblioteca, com os respectivos assistentes que constituem o corpo directivo, onde procuro ser apenas um orientador, um amigo que espera e confia deles as melhores iniciativas, pois são eles que resolvem os seus problemas, de acordo com os interesses da maioria expressos no resultado da votação a que se procede.” 

Durante a nossa permanência no Clube Fenianos passamos pela trágica ocorrência de um incêndio que destruiu as instalações que ocupávamos. Foi no dia 2 de Novembro de 1958. Ficamos completamente desorientados e desgostosos, mas logo nos foi prometido que, após as obras de reconstrução voltaríamos a ocupar esse nosso espaço. Pudemos ocupar provisoriamente outras salas, mas esse novo espaço era menos acolhedor e não se adaptava bem às nossas actividades. Foi então que surgiu um andar, na Rua de Santa Catarina, 1210, onde passamos a exercer as nossas actividades, agora como Centro Ramalho Ortigão.


Humberto Carneiro - 2011

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