Orientados por um ideal de solidariedade humana e cristã, com inequívocas raízes nacionais e um paralelo anseio de mais cultura, pretendemos levar essencialmente às camadas jovens os meios indispensáveis à sua valorização, roubando-os à passividade perniciosa ou ao desânimo de incompreendidos que não encontraram, no «mar magno» das multidões, o caminho seguro das suas tendências.

Certamente, muito teria que aproveitar o País se um maior número de instituições, desta natureza, colocasse cada português no seu verdadeiro «posto», deixando-o desabrochar sinceramente para a vida e para o conhecimento mais profundo das necessidades espirituais da Nação Portuguesa.

Ferrão Moreira – Agosto de 1959

sábado, 8 de janeiro de 2011

APRESENTAÇÂO

Foi na Escola Gomes Teixeira que tudo começou!

Muitos dos alunos do Distrito do Porto que terminaram a 4ª. classe da Instrução Primária no ano de 1951, não querendo ou não podendo optar pela via do ensino liceal, foram propostos a exame de admissão às escolas de ensino técnico existentes na cidade. Sucedeu, porém, que, por aquela mesma altura, se deu início ao Ciclo Preparatório, constituído pelos dois primeiros anos dos cursos industriais e comerciais, originando o encurtamento destes, de cinco para três anos.

No segundo período do ano lectivo de 1951/1952, portanto já no decurso do ano de 1952, um grupo daqueles alunos abandonou a instalações da Escola Industrial Infante D. Henrique, onde frequentara, provisoriamente, o primeiro período de aulas, e foi ocupar as novíssimas instalações - com ginásio, cantina e oficinas ainda em fase de construção - de uma das escolas onde funcionaria o Ciclo Preparatório. Chamava-se, à altura, Escola Técnica e Elementar Gomes Teixeira, situando-se na Praça da Galiza, na cidade do Porto, onde ainda funciona com o nome de Escola Básica Gomes Teixeira.

Muitos dos professores, ainda no início da respectiva carreira e aproveitando as excelentes condições que a Escola proporcionava, aplicaram novas técnicas educativas – hoje em dia, perfeitamente usuais, mas raríssimas na altura - que incluíam, para além de deslocações a locais históricos e a museus, o teatro, a poesia, o desenho e a pintura e as representações e exposições em fim de período ou de ano.

De alguns, embora poucos, professores recordamo-nos dos nomes: Dr. Fernando Ferrão Moreira, professor de Língua e História Pátria, Mestre Júlio Resende, professor de Desenho e Prof Armelindo Bentes, professor de ginástica, mas, apenas no 2º. Ano.

Julgamos que a experiência colhida pelo Dr. Ferrão Moreira nesta Escola o terá levado a dar continuidade à sua intenção de “…levar essencialmente às camadas jovens os meios indispensáveis à sua valorização, roubando-os à passividade perniciosa…” e, de maneira a evitar a dispersão dos seus alunos, criou a

 Secção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Portuenses
Porto

onde, durante alguns anos, os seus alunos se reuniram aos Sábados de tarde e, também, ao Domingo de manhã, aproveitando, não só as suas magníficas lições de Língua e de História Pátria, mas igualmente as de Pintura, pelos Mestres Júlio Resende e Valentim Malheiro e, mais tarde, pelo Mestre Isolino Vaz, as de Música, as de Teatro, as de Declamação, as de Xadrez e outras mais.

Por razões várias, o Clube Fenianos Portuenses viu-se obrigado a encerrar a Secção Cultural para a Juventude, mas o Dr. Ferrão Moreira e a sua equipa de professores contagiada pelo seu entusiasmo não desistiram. Alugaram um segundo andar de um prédio antigo sito à Rua de Santa Catarina (o prédio ainda existe), nas proximidades da Fontinha, e deram continuidade à sua obra pedagógica com a criação do

Centro Cultural Ramalho Ortigão
Porto

local onde, durante uns anos mais, proporcionaram a largas dezenas de jovens de ambos os sexos, e de forma gratuita, um fluxo cultural verdadeiramente invulgar. Nomes grandes da nossa cultura – Mário Cláudio, Júlio Cardoso, Júlio Couto e outros mais – conviveram nas salas acanhadas daquele segundo andar.

Mas foi o êxito da representação da peça “Antigona”, de Sófocles, glosa nova de António Pedro, encenada por Jayme Valverde, professor de Teatro do Centro que coroou de louros o esforço, a dedicação e o entusiasmo de professores e alunos. Em Setembro de 1959, em concurso levado a efeito pelo S.N.I. (Secretariado Nacional da Informação) no Teatro Trindade, em Lisboa, a representação daquela peça obteve uma brilhante Menção Honrosa, apesar da enorme falta de meios de que o Centro padecia.

Por razões de carácter político, nunca, o Centro, conseguiu ser reconhecido como uma organização cultural juvenil de pleno direito. Viu-se forçada a encerrar as suas instalações e a renunciar a qualquer actividade. Porém, nem o Dr. Ferrão Moreira, nem a grande maioria dos que com ele conviveram e levaram, por diante, este projecto único, desistiram ainda assim. Na impossibilidade de transmitir cultura, directamente, aos jovens interessados, pensaram fazê-lo através do:

Jornal “ O Meu Amigo”  

cujo primeiro número foi distribuído em Junho de 1963, cobrindo um universo essencialmente constituído pelos antigos alunos, agora bastante dispersos.

O mensário foi sobrevivendo com grande dificuldade, mas acabaria por morrer, ao fim de 28 números, em Outubro de 1965.

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Mais de quarenta anos depois, um pequeno grupo de antigos alunos do Dr. Ferrão Moreira resolveu organizar uma homenagem – póstuma, já que o Professor e Amigo falecera, entretanto – que incluiu uma romagem ao seu jazigo, no Cemitério do Prado do Repouso e um almoço de confraternização. O evento reuniu mais de meia centena de pessoas e dele daremos conta, noutra oportunidade.

Mais recentemente, houve quem sugerisse a criação de um blogue, ou sítio, que servisse de ponto de encontro a todos quantos, de algum modo, estiveram ligados às iniciativas do Dr. Ferrão Moreira.

Quanto ao blogue, ei-lo aqui! Aberto a quem nele queira colaborar, mesmo que seja corrigindo o que se vai escrevendo apenas alicerçado em memórias com quase meio século de existência.

J Silva Pereira

1 comentário:

Anónimo disse...

Aqui está o primeiro passo para registar a existência de uma importante actividade que marcou a vida de muitos jovens de então ainda na vigência do antigo regime, e sob a vigilância da PIDE.
O texto é necessáriamente um esboço que precisa de ser completado. Para já sugiro que seja acrescentado o nome de um professor de Pintura que dava aulas com o Mestre Júlio Resende, e que era o Professor Valentim Malheiro. Só mais tarde lhes sucedeu o Professor Isolino Vaz.
HC